luto na lata


10/09/2005


Palhaço alcoólatra,

alegria volátil...

                      João Simas

Escrito por João Simas às 14h22
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Poema dos iguais

 

Ela trouxe no perfume uma rosa

Deixou o cabelo deitar de lado e o soprou com uma brisa leve que flutuava de sua boca

O cabelo era comprido e encrespado,

 

A boca deixava um ar de desejo relutante

Tinha um tom vermelho como maçã,

Também era o meu batom preferido

Que bom que tínhamos o mesmo gosto...

 

Sua pernas  tremiam toda vez que eu a censurava

Eram pernas lisas e macias,

Como as minhas

Gostávamos até mesmo do mesmo tipo de cera pra depilar

E da mesma meia-calça “Trifil” desfiada de sempre

 

Seus seios só não eram maiores que os meus

Mas sentia que naquele leito acolhedor de todas as minhas dores

Sempre teria o sabor que eu tanto busquei...

O prazer de sentir o gosto do suplício no beijo dos  iguais.     

                                                                       Jéssica Simas

Escrito por João Simas às 02h20
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Desculpe mãe,

Desculpe pai,

Seu filho já sabe o que quer ser quando crescer

“crucificar Cristo em Barrabaz”

                                                  João Simas

Escrito por João Simas às 02h10
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08/09/2005


Suruba( ou  do dia que nunca acaba)

 

Tudo mudo em cima de mil mundos desnudos

Silabemos as silabas

Si lambemos como gatos

 

Esfrega a única prega que lhe resta à reta testa do caralho....

                                                                                             João Simas

Escrito por João Simas às 00h14
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Estou grávido de gravidade erguida

Me sentindo em últimos dias

Seis meses,

Ninguém à soleira de minha porta

Estou grávido de nuvens em vão

Ninguém dentro de mim...

chuta o meu ventre,

me seca o seio,

Me chama de mamãe

Abortei a possibilidade à gravidade de uma grávida...

Qualquer quê de solidão

                              João Simas...

Escrito por João Simas às 23h50
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06/09/2005



Para Yuri Brito
Ele chegou, olhou à sua volta e uma parede ainda de pé ostentava orgulho da gravidade que nela se segurava. O homem se sentiu desafiado, queria saber se a força que ela pendurava naquele emaranhado de barro, cimento e tijolo era digno de tanta rigidez e reboco. Ela estava tão opulenta que o cabra sentiu subir uma friagem na espinha e, de súbito empunhou uma marreta, não era bom sinal.
Talvez ele não soubesse ler e nem escrever, mas isso pouco importava, porque ele aprendera o oficio desde muito moço, e se tinha uma coisa (talvez a única) que ele sabia fazer bem era derrubar paredes, e não ia ser justamente aquela que mudaria o curso da sua história tão metricamente calculada. É verdade, ele deveras não sabia empunhar a esferográfica, mas força nunca lhe faltara na hora de colocar a baixo aquilo que lhe incomodava e, também era dali que ele tirava o pão , o arroz, o feijão, a farinha, a cachaça e o cigarro, estes que são elementos primordiais para que um homem viva bem num barracão com a sua prole faminta.
Já passava pouco mais das oito e trinta e sete da manhã, e a parede continuava lá, naquele bar de sempre, que outrora ele tomara suas doses santas e a do santo(não era lá muito religioso). Ele nunca se afeiçoou com a maneira que se portava aquela parede, tão imperfeita e ele tão perfeccionista.
Pois bem, havia chegado o grande dia. Com a marreta em punhos lançou-se junto ao primeiro golpe, foi certeiro e preciso e logo depois fez-se ouvir o primeiro conjugado de concreto cair no chão. Pronto, agora a sorte estava lançada restava saber quem ao final permaneceria de pé. Vale ressaltar que era uma parede bem resistente, fortificada e que dava tons de muralha àquela estrutura tão colossal, afinal de contas, havia sido ele o seu progenitor e por isso mesmo se envergonhava daquela aberração e por isso sentia aquele frêmito impulso de derrubar e construir tudo novamente, para dessa vez ela ser digna de tão grandioso pedreiro, mas teria que fazer das tripas o coração e o órgão que for necessário para poder realizar seu intento. Podemos pensar que talvez este seja o único poder quem um homem preto e pobre traga nas mãos calejadas e amarelas como forma de afirmar sua existência, o poder de criar à mesma intensidade de destruir uma parede, isso lhe dava vontade de potência, talvez devido a isso estava tão ansioso para por tudo aquilo no chão.
Foram quase nove horas e meia de exaustiva batalha, o homem e sua criação, o criador e a criatura. Ao final fez-se ouvir dois grandes tombos. O primeiro foi o da parede em pedacinhos e que não mais ostentava nada, a não ser o ar de fênix que retorna ao pó. No extremo oposto estava ele, o grande filho do homem, sentia uma estranha sensação de tarefa cumprida e nostalgia. Suas forças exauridas ainda alimentavam-no a cumprir a próxima tarefa, a de reconstruir tudo aquilo novamente, como assim já o fizera outras tantas vezes.
Ao final do dia já estava tudo consumado, a parede erguida novamente e o preto repleto de admiração contemplava aquilo que acabara de reerguer e, agora encontrava-se absorvido na aguardente e nos pensamentos que lhe faziam tilintar os olhinhos cansados e sofridos e a única idéia que lhe vinha a cabeça era a de esperar ansiosamente pelo próximo confronto e derrubar aquilo tudo novamente, pois não gostara daqueles ângulos disformes e daquele mesmo ar onipotente de antes, deveras era isso que mais lhe incomodava. E o que mais impressionava é que tava tudo igualzinho como era antes. No entanto, este era o jeito deles dois, nunca mudaram mesmo...
João Simas

Escrito por João Simas às 14h41
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