Palhaço alcoólatra,
alegria volátil...
João Simas
Palhaço alcoólatra,
alegria volátil...
João Simas
Poema dos iguais
Ela trouxe no perfume uma rosa
Deixou o cabelo deitar de lado e o soprou com uma brisa leve que flutuava de sua boca
O cabelo era comprido e encrespado,
A boca deixava um ar de desejo relutante
Tinha um tom vermelho como maçã,
Também era o meu batom preferido
Que bom que tínhamos o mesmo gosto...
Sua pernas tremiam toda vez que eu a censurava
Eram pernas lisas e macias,
Como as minhas
Gostávamos até mesmo do mesmo tipo de cera pra depilar
E da mesma meia-calça “Trifil” desfiada de sempre
Seus seios só não eram maiores que os meus
Mas sentia que naquele leito acolhedor de todas as minhas dores
Sempre teria o sabor que eu tanto busquei...
O prazer de sentir o gosto do suplício no beijo dos iguais.
Jéssica Simas
Desculpe mãe,
Desculpe pai,
Seu filho já sabe o que quer ser quando crescer
“crucificar Cristo em Barrabaz”
João Simas
Suruba( ou do dia que nunca acaba)
Tudo mudo em cima de mil mundos desnudos
Silabemos as silabas
Si lambemos como gatos
Esfrega a única prega que lhe resta à reta testa do caralho....
João Simas
Estou grávido de gravidade erguida
Me sentindo em últimos dias
Seis meses,
Ninguém à soleira de minha porta
Estou grávido de nuvens em vão
Ninguém dentro de mim...
chuta o meu ventre,
me seca o seio,
Me chama de mamãe
Abortei a possibilidade à gravidade de uma grávida...
Qualquer quê de solidão
João Simas...
Para Yuri Brito
Ele chegou, olhou à sua volta e uma parede ainda de pé ostentava orgulho da gravidade que nela se segurava. O homem se sentiu desafiado, queria saber se a força que ela pendurava naquele emaranhado de barro, cimento e tijolo era digno de tanta rigidez e reboco. Ela estava tão opulenta que o cabra sentiu subir uma friagem na espinha e, de súbito empunhou uma marreta, não era bom sinal.
Talvez ele não soubesse ler e nem escrever, mas isso pouco importava, porque ele aprendera o oficio desde muito moço, e se tinha uma coisa (talvez a única) que ele sabia fazer bem era derrubar paredes, e não ia ser justamente aquela que mudaria o curso da sua história tão metricamente calculada. É verdade, ele deveras não sabia empunhar a esferográfica, mas força nunca lhe faltara na hora de colocar a baixo aquilo que lhe incomodava e, também era dali que ele tirava o pão , o arroz, o feijão, a farinha, a cachaça e o cigarro, estes que são elementos primordiais para que um homem viva bem num barracão com a sua prole faminta.
Já passava pouco mais das oito e trinta e sete da manhã, e a parede continuava lá, naquele bar de sempre, que outrora ele tomara suas doses santas e a do santo(não era lá muito religioso). Ele nunca se afeiçoou com a maneira que se portava aquela parede, tão imperfeita e ele tão perfeccionista.
Pois bem, havia chegado o grande dia. Com a marreta em punhos lançou-se junto ao primeiro golpe, foi certeiro e preciso e logo depois fez-se ouvir o primeiro conjugado de concreto cair no chão. Pronto, agora a sorte estava lançada restava saber quem ao final permaneceria de pé. Vale ressaltar que era uma parede bem resistente, fortificada e que dava tons de muralha àquela estrutura tão colossal, afinal de contas, havia sido ele o seu progenitor e por isso mesmo se envergonhava daquela aberração e por isso sentia aquele frêmito impulso de derrubar e construir tudo novamente, para dessa vez ela ser digna de tão grandioso pedreiro, mas teria que fazer das tripas o coração e o órgão que for necessário para poder realizar seu intento. Podemos pensar que talvez este seja o único poder quem um homem preto e pobre traga nas mãos calejadas e amarelas como forma de afirmar sua existência, o poder de criar à mesma intensidade de destruir uma parede, isso lhe dava vontade de potência, talvez devido a isso estava tão ansioso para por tudo aquilo no chão.
Foram quase nove horas e meia de exaustiva batalha, o homem e sua criação, o criador e a criatura. Ao final fez-se ouvir dois grandes tombos. O primeiro foi o da parede em pedacinhos e que não mais ostentava nada, a não ser o ar de fênix que retorna ao pó. No extremo oposto estava ele, o grande filho do homem, sentia uma estranha sensação de tarefa cumprida e nostalgia. Suas forças exauridas ainda alimentavam-no a cumprir a próxima tarefa, a de reconstruir tudo aquilo novamente, como assim já o fizera outras tantas vezes.
Ao final do dia já estava tudo consumado, a parede erguida novamente e o preto repleto de admiração contemplava aquilo que acabara de reerguer e, agora encontrava-se absorvido na aguardente e nos pensamentos que lhe faziam tilintar os olhinhos cansados e sofridos e a única idéia que lhe vinha a cabeça era a de esperar ansiosamente pelo próximo confronto e derrubar aquilo tudo novamente, pois não gostara daqueles ângulos disformes e daquele mesmo ar onipotente de antes, deveras era isso que mais lhe incomodava. E o que mais impressionava é que tava tudo igualzinho como era antes. No entanto, este era o jeito deles dois, nunca mudaram mesmo...
João Simas