Amor e passageiro
Já havia tomado o ônibus quando me deparei com aquela imagem divina que estava vindo em minha direção. Só podia ser uma miragem, mas àquela noite até que a temperatura estava amena, ao menos era o que dizia a metereologia, variando entre vinte e cinco e vinte e sete e meio graus, isso do lado de fora porque à medida que a Vênus ia se aproximando me sentia mais flamejante e volátil ao ponto de me sentir planar e perder a gravidade que me atrai para o centro da terra e focar toda atração àquela imagem pitoresca, que mais parecia um afresco renascentista que um monte de carne e pensamentos soltos, mas soltos mesmo estavam seus longos cabelos negros. Me senti na Capela Cistina ou na Basílica de São Pedro, mas os pensamentos que me rondavam não eram lá muito religiosos, ao contrário, bem queria eu profanar aquele templo reluzente de lábios carnudos cor-de-beterraba.
A tão esperada hora havia chegado ela estava deparada bem ao meu lado contemplando o lugar que estava vago, como que analisando aritmeticamente todo o meu jeito estúpido de marmanjo abobalhado. Finalmente ela tomou o assento e fez chover dentro de mim uma explosão de emoção, até parecia que eu tinha ganhado um premio milionário( e assim não o era?). Meus olhos não paravam de frêmitar em toda a extensão da cavidade ocular, cheguei a fazer malabares com a retina só para melhor reter aquela imagem cintilante nos meus pensamentos tão levianos. O mais impressionante é que parecia que ela sentia o mesmo, eu podia sentir seus lábios balbuciarem meu tão indigno nome: - Jorge? e à medida que ia falando ia tomando o meu corpo por seu e não só o corpo, mas também a alma e a tudo que dela flui. Eu ainda consegui sentir o calor de suas mãos por um breve segundo, mas já era o suficiente pra perdurar na eternidade aquele momento tão sublime. De repente ela me perguntou que horas tinha e eu disse: - são nove e meia meu doce, mas ela nem notou o meu gracejo e logo em seguida tomou sua postura reta e de pernas cruzadas( não sei como ela conseguia fazer esse tipo de coisa dentro do ônibus e de forma tão sublime ), ela parecia meio impaciente será que ela queria me perguntar mais alguma coisa além das horas? De súbito ela tirou algo de dentro da bolsa e levou a sua linda boquinha e começou a mastigar, não demorou muito pra ela notar que eu estava fitando-a de maneira muito estranha e então, ela dirigiu novamente a palavra pra mim, eu que sou um reles mortal não mereço que um ser tão divino como aquele me dirija a palavra duas vezes no mesmo dia, mas mesmo assim ela foi gesticulando devagar e me fez uma pergunta meio estranha: - tu quer chicretes? Fiquei mais deslumbrado ainda com ela que nem pude responder no ato, até o português errado dela era perfeito, comecei a sentir a estranha sensação de que iria passar o resto da vida com aquele ser me perguntando todos os dias se aceitava chicretes. Já estava pronto pra perguntar a ela qual o seu nome e lhe informar que tínhamos sido prometidos um ao outro e que aquele ônibus era o condutor de nosso amor, eis que acontece algo que me deixou muito triste, como ela estava muito compenetrada lendo sua revista de fofoca não se deu conta de que já havia passado o seu ponto, quando percebeu começou a fazer sinal e a xingar o motorista, que a essa altura já estava super estressado e que só iria parar dois pontos depois dali. À medida que ela ia soltando as palavras eu percebia que andava meio desinformado e desatualizado acerca do nosso rico repertório de palavrões. Deu pra aprender uns onze tipos de profissões da mãe do motorista e mais umas quinze maneiras de dizer que o cobrador era gay. Pronto, estava tudo arruinado, minha deusa acabara de descer soltando fumaça pelas ventase maldizendo o mundo todo e inclusive eu que ainda me arrisquei a dá um tchauzinho que ela respondeu com um gesto singelo do dedo médio levantado. É meu amigo é como dizem por ai: “amor que começa no ônibus só pode ser passageiro”. João Simas


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