luto na lata


12/03/2006


É que Narcisio se acha feio quand o lembra de seus pentelhos...

                                                                                       Jéssica Simas

 

Escrito por João Simas às 18h58
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            José Joaquim, trinta e oito anos por um lado e setenta e seis por outro. Pai por um lado e filho por outro que tem andado meio vivo e meio morto por todos os lados, como dizem por aí, com o pé na cova por um lado e a cabeça na lua por outro. Saiu de casa pela manhã, ainda cedo, lá pelas quatro com o sol levantando nas suas costas. Tomou o coletivo com o sugestivo nome de “Pau Deitado”, trazia na mochila em meio as ferramentas de trabalho ( o martelo, o escalímetro, o prumo e um cotoco de lápis ) ela, a “marmita” ainda quente por um lado e gélida por antecedência por outro, não sabia ele que não chegaria sequer a sentir o cheiro do feijão já meio azedado antes do dia acabar, ou não. Sabia ele que não sentiria o cheiro dos cabelos despentados de sua nega, ou não. O fato é que ele tinha certeza de uma coisa, os andaimes sempre lhe diziam alguma coisa, ou anunciavam, ou simplesmente não falavam nada mesmo, pois andaimes não falam e nem anunciam e nem ele saberia entender, ele não é um homem de palavras por um lado analfabeto seu, mas por outro é falador em quanto macho, mas só fala o necessário e não lhe interessa quem está errado. Passou pelo bairro do Monte Castelo já tava caindo o alto das seis horas ele estava embebido em seu pensamentos, totalmente absorto, nem ele mesmo sabia em que estava pensando, era um misto de sonhos da noite passada, de contas pra pagar e a possibilidade de acreditar que aquele seu bilhete era premiado e é nesse emaranhado de pensamentos que ele desce do “Pau Deitado”, meio mergulhado e amargurado por aquilo que estava pensando. Estava tão absorto por um lado que nem viu a Hilux por outro, e quando viu já era tarde demais, ou não. O lustroso carro passou por cima do monte de carne de Joaquim por um lado e ele saiu andando por outro, esse foi o primeiro óbito de José Joaquim, ou não. Quando a ambulância havia chegado duas horas depois do ocorrido, ele estava estendido ao sol quente ainda agonizante por um lado e ainda absorto em seus pensamentos por outro quando chegou no canteiro de obras lá onde o sol já começava a coçar a pele quente por um lado e já fria por outro quando a ambulância chegou ao hospital. Foi decretado morte por falência múltipla dos órgãos por um lado, enquanto que por outro a aguardente lá no canteiro de obras lhe fervilhava o sangue para lhe dá forças para continuar por todos os lados, ou não. Chegou a hora do almoço por um lado e da autópsia por outro, ou não, enquanto ele passava a faca pelo pedaço suculento de uma carne de porco preparada especialmente para o momento por um lado, era ele também posto à mesa para que lhe passassem o bisturi por outro, ou não. A tarde já caia quando ele se arrumava para voltar pra casa e voltar a vê sua nega e seus neguinhos por um lado, por outro o seu corpo também já se preparava para voltar pra casa, todo embalsamado, ou não. Quando José Joaquim tomou o coletivo de volta para casa, estava lotado, tão apertado quanto a caixa de madeira que lhe encerrava agora por todos os lados e ainda assim ele nunca iria conseguir sair do aperto de nenhum dos lados. Quando avistou a casa estava exausto por um lado e exaurido por outro, a rua estava quieta e silenciosa como sempre por um lado e tumultuada por outro, ou não. Quando o seu corpo chegou foi conduzido direto à sala por um lado, enquanto ele se dirigia para o quarto por outro. Os olhos da nêga estavam marejados por todos os lados, ou não. Por outro lado os olhos da nêga estavam cheios de delírios e prazeres nos braços fortes de João Sebastião, ou não. Este foi o segundo óbito de José Joaquim, ou não. Deitou à cama de um quarto qualquer por um lado e sucumbiu à terra fria que lhe serviria de lençol para todo o resto de seus restos por outro, ou não. Desde então José Joaquim morreu e viveu todos os dias, com ou sem restos, ou sim, ou não.         

                                                                                                                                              J... Simas

Escrito por João Simas às 18h25
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