Ainda nem bem amanhecia e ela já tomava o primeiro coletivo de volta pra casa, seus olhos ainda recheavam de pranto aquele olhar tão pitorescamente desenhado. Ela via que tudo o que sentia não passava de um mal entendido, mas ainda assim sentia a necessidade de checar se estava tudo nos conformes. Primeiramente, sentiu se os seus lábios ainda estavam untados com a saliva dele e em seguida abriu os braços, como que para estreitar o abraço dele novamente, nada voltava de forma tão simples como antes, nem tão metricamente escrita em versos loucos, só o vento vazio que lhe lambia a fronte. O que ela queria mesmo era tocá-lo novamente, não somente com o olhar, mas desta vez com as firmes fontes do seu desejo tão lancinante, ela tinha nisso uma manifestação vital de um que chega à beira do outro sem sussurrar-lhe palavras em seu cangote, sorvendo o suor ainda quente de sua sanidade.
Finalmente chegou à porta de casa, parecia não reconhecer aquele casebre onde vivera outrora feliz e preenchida, queria se negar à vida como se fosse algo tão desprezível aquilo que ela planejara tão friamente e que não passara de seus humildes planos, foi quando se deu conta que já estava enrolada em sua cama de casal com um só travesseiro e uma toalha de banho pendurada na cabeceira, ainda meio umedecida e seu corpo desfalecido parecia suplicar expiação, mas ela detinha a retina fixa em um só ponto e apesar de não está pensando em nada, a não ser o que ela tinha a dizer pra si própria, tudo lhe parecia girar mais rápido do que o de costume, fitou o peixe laranja com algumas manchas pretas ao qual atribuíam o nome de “peixe japonês”, na verdade sempre se questionara acerca da origem desse nome, pois se ele era japonês por que tinha olhos tão arregalados que brilhavam intensamente, ela só o chamava simplesmente de “peixe”. Ela viu dentro daquele aquário o seu destino: passar o resto de sua vida trancada ali naquele quarto que agora seria o seu aquário sepulcral, não sentia mais vontade de nada, nem de fumar, nem de deitar, nem de beber e nem de foder, só queria ficar ali fitando aquele aquário de um só peixe chamado “peixe”. Nem tudo fez muito sentido a ela, mas não precisava fazer sentido, precisava apenas sentir e ela sentia muito a falta do outro travesseiro que dava acesso direto ao cheiro do cabelo encrespado dele, mas ele não estava mais ali, era preciso esquecê-lo de uma vez por todas. A única alternativa que lhe restava era a de ficar ali vislumbrado suas lembranças e seus escritos de dias perdidos, como que esperando alguma coisa de inevitável franqueza acontecer, ela não sabia se esperava a morte ou se tecia uma mortalha para o seu próprio sonho fúnebre. Não, ela precisava mesmo era de uma garrafa de vidro, pois estava decidida a enviar o relato de seus últimos dias ali.


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